
A felicidade reina por estas bandas! Mal posso esperar por vê-lo!
Um blog sobre opera, onde um principiante na coisa vai falando e comentando as coisas que descobre.


O Ottelo foi daquelas óperas a que inicialmente criei alguma resistência, vá-se lá saber porquê, mas agora deixou-me completamente avassalado. Desde o libretto extraordinariamente bem escrito à música monumental, tudo nesta obra transpira a uma tão grande qualidade que até nos faz deixar deprimidos por saber que daí em diante (à excepção de Puccini) a ópera italiana caiu a pique.
A história, adaptação da peça homónima de Shakespeare, é só por si só dilacerante e por vezes dá vontade de perguntar se se deveria chamar Ottelo ou Jago. Tudo se passa na ilha de Chipre, com as gentes a cantar sobre o barco onde Ottelo navega e a dificuldade que ele está a ter para atracar devido às ondas levantadas por uma grande tempestade (deixem-me dizer que só este inicio é qualquer coisa de arrepiante e que deixa cá uma água na boca para o resto!). O barco lá atraca e Otello desembarca, não sem deixar de dar um grande grito, ou isto não fosse ópera. Toda a gente exclama e então começamos a perceber a tramóia da cousa. Acontece que entre a multidão que aguardava Otello havia dois homens, de seus nomes Jago e Roderigo. O primeiro o chefe da marinha e o segundo um cavaleiro que confessa ao primeiro estar apaixonado por Desdémona (agora vejam com atenção se não é mesmo coisa de ópera), a mulher de Otello! (isto vai dar para o torto!). Jago, que é boa pessoa, promete ao amigo que Desdémona será sua se ele o ajudar a destruir Otello. O pacto fica feito e para dar início a tudo começam por tentar destruir Cássio, o recém-nomeado tenente de Otello (em detrimento de Jago). Os dois convidam então Cássio para ir pós copos no bairro alto do sítio e a coisa acaba com Cássio envolvido numa disputa (Devo dizer que este momento na taberna é dos meus preferidos. Gosto mesmo muito da musica neste momento). Por ordem de Jago, chega aos ouvidos de Otello (o qual estava já no quentinho do seu castelo com a sua mais que tudo a fazer sabe-se-lá-o-quê) e este aparece irritado aos gritos a mandar toda a gente para casa e a despromover Cássio (pudera que o homem estivesse irritado, ninguém gosta de ser interrompido a meio!). Quando tudo se acalma, Otello volta para junto de Desdémona e então canta-se um belíssimo dueto de amor (ah malandro, estavam a cantar, claro!). Acaba o primeiro acto.
Começa o segundo acto. O pérfido Jago conversa com Cássio, fazendo-se passar por amiguinho e mostrar-lhe que o quer ajudar a recuperar a confiança de Otello. Para isso diz-lhe que deveria pedir a Desdémona para interceder por ele junto de Otello. O homem sai e fica só Jago, e como não quer estar parado ali sem fazer nada canta uma ária sinistra (e a meu ver brutalmente fenomenal) onde revela o verdadeiro propósito do seu coração e que a sua alma está vendida ao diabo. Jago fica a ver Cássio a conversar com Desdémona, até que chega Otello. Ao aperceber-se da sua chegada começa a falar mais alto e dizendo palavras chave que despoletam a chama do ciúme no guerreiro. Otello exige saber o que está ele a insinuar. Jago apenas lhe diz para ter cuidado. Chegam gentes que cantam
para Desdémona e esta pouco depois chega-se à beira de Otello para interceder por Cássio. O homem fica ruído de ciúmes e reage bruscamente, Desdemona pensa que ele não está lá muito bem e tenta passar-lhe com um lenço na testa. Otello afasta-a e o lenço cai ao chão, sendo agarrado pela aia de Desdémona. Jago aproveita então a ocasião para mover mais uma peça no seu jogo e em troca de uma recompensa fica com o lenço que a aia apanhou. Quando todos saem, Otello está atormentado e pede a Jago que lhe prove que o ciúme dele tem fundamento. Jago fala-lhe então de um lenço que Desdémona possui. Otello recorda-se dela o possuir realmente e Jago diz-lhe que naquela momento o lenço se encontra em posse de Cássio. Possesso, Otello e jago juram vingança a Cássio.
O terceiro acto começa com Desdémona a chegar junto de Otello. A pedido de Jago, este tenta tomar atenção e ter cuidado com tudo. Desdémona intercede uma vez mais por Cassio e Otello, ruído por dentro, nada responde, perguntando antes pelo lenço dela. Desdemona diz que está no quarto e torna a insistir por Cassio e aí o homem perde as estribeiras e acusa-a de infidelidade e manda-a dali para fora. Chega Cassio e Jago e Otello esconde-se para ouvir a conversa. Jago puxa por Cássio, enganando-o e fazendo-o falar sobre Desdémona. Sabendo que Otello estava a ouvir, Jago faz com que ele ouça apenas aquilo que lhe convém. No desenrolar da conversa, Cassio mostra o lenço de Desdemona a Jago e diz-lhe que não entende como aquilo lhe foi parar a casa e Otello fica possesso de ciúmes. Tem assim a confirmação, no seu entender, de que existe ali uma traição. Entretanto chegam mensageiros de Veneza. Otello pede a Jago uma poção para envenenar Desdémona (ainda bem que a amava tanto) mas este sugere-lhe antes a morte por sufocamento (agora quero ver-te cantar! Haha). Otello promove Jago mas os mensageiros avisam-no de que ele deve regressar a Veneza e deixar Cassio como governador do Chipre. O homem fica ainda mais furioso e maltrata Desdémona na frente de toda a gente. A pobre coitada nem sabe como há-de reagir a tamanha crueldade e tenta justificar uma coisa que nem ela entende. È amaldiçoada e expulsa. Sozinho com Jago, Otello desabafa a sua tristeza, enquanto jago rejubila pelo declínio de Otello.
O quarto e ultimo acto passa-se no quarto de Desdémona, onde esta desabafa com a sua dama de companhia. Esta ultima depois sai e Desdémona procura o conforto rezando uma Avé Maria (a qual ficou famosíssima). Otello entra e ao ve-la deitada em silencio, aproxima-se, beija-a três vezes. Desdémona acorda e este pergunta-lhe se ela já pediu perdão a Deus pelo pecado que ela cometeu com Cassio. Ela feita tonta volta a dizer que não, não aconteceu nada, mas o marido cheio de ciúmes pega numa almofada e sufoca-a até ela deixar de esbracejar. De repente (lá está, na opera as pessoa aparecem sempre de repente) aparece a dama de companhia de Desdémona a dizer que Cassio matou Rodrigo e fica chocada ao ver o corpo inerte da sua senhora. Corre a pedir socorro e aparece Cassio, entre outros. A dama de companhia revela o plano macabro de Jago e este foge perseguido por soldados. Otello dilacerado pelo remorso, mata-se com um punhal. O pano cai, a musica termina num compasso lento e a opera acaba.
Monumental! uma ópera monumental e abismal. Altamente recomendável!